quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O casulo

O grande escritor grego Nikos Kazantzakis conta que, quando criança, reparou num casulo preso a uma árvore, onde uma borboleta preparava-se para sair. Esperou algum tempo, mas como ela estava demorando muito resolveu acelerar o processo, esquentando o casulo com seu hálito. A borboleta terminou saindo, mas morreu em seguida, pois suas asas tinham continuado presas.
"Era necessária uma paciente maturação feita pelo sol, e eu não soube esperar", diz o escritor. "Aquele pequeno cadáver é, até hoje, um dos maiores pesos que tenho na consciência. Mas foi ele que me fez entender o que é um verdadeiro pecado mortal: forçar as grandes leis do Universo".
É preciso paciência, aguardar a hora certa e entregar-se  com confiança ao ritmo que Deus escolheu para a nossa vida.
 
Texto retirado do livro: Como atirar vacas no precipício.
Postado por: Adriana Francisca de Oliveira
 

VIVER É DIFERENTE DE SOBREVIVER

  
É triste ver tanta gente lutar para sobreviver. E não estou falando apenas daqueles que ganham salário mínimo, mas de executivos que vivem angustiados com tantas pressões, de empresários que fogem de suas famílias, pois não aprenderam a amar, de pessoas de todos os níveis sociais que estão sempre assustadas perante a vida.

São pessoas que não vivem. Apenas sobrevivem, como se estivessem numa crise asmática permanente: aquela eterna falta de ar e, de vez em quando, o alívio rápido e passageiro. Logo depois sentem de novo o sufoco insuportável. Essas pessoas não vivem, sobrevivem. E apenas sobreviver é trabalhar em algo sem sentido só para manter o salário; é fazer joguinhos de poder para manter o emprego; é sair com alguém que não se ama somente para aplacar a solidão; é ter relações sexuais só para manter o casamento; é não conseguir desgrudar os olhos da TV, com medo de escutar a voz da consciência; é ter de tomar alguns drinques para conseguir voltar para casa.

A sociedade nos pressiona diariamente para nos transformar em máquinas. Todos os dias, pela manhã, uma multidão liga seu corpo como se fosse mais uma máquina e sai pela porta para uma repetição infinita de ações rotineiras sem nenhuma relação com sua vocação e seu talento. E muita gente chama a isso livre-arbítrio.

Depois vão a massagens, saunas, fazem um monte de ginástica em busca de um pouco de energia extra para, no dia seguinte, voltar a fazer o mesmo trabalho que não tem nenhuma relação com sua alma.
Muitos estados de depressão são, na realidade, frutos de uma terrível sensação de inutilidade. Esse olhar vago do deprimido é muitas vezes o olhar de quem poderia ter aproveitado as oportunidades da vida, mas não soube valorizar o que era realmente importante.

Se, por acaso, você se identificou com a descrição acima, está na hora de mudar. Aproveite o início de um novo ano ! O filósofo espanhol Julián Marías escreveu que a infelicidade humana está em não preferir o que preferimos. Quando uma pessoa não prefere o que prefere, acaba se traindo. As escolhas de nossa vida têm sempre de privilegiar a nossa essência. Nossa vocação não tem nada a ver com ações sem afeto. O ser humano nasceu para realizar a sua vocação divina. No entanto, quantas vezes acabamos nos dedicando exclusivamente à sobrevivência!

Sobreviver e viver são experiências completamente distintas. Viver é ser dono do próprio destino. É saber escrever o roteiro da própria vida. É ser participante do jogo da existência, e não mero espectador. É viver as emoções, é ter os próprios pensamentos e viver os seus sonhos.

Sobreviver é administrar o tempo para que o dia acabe o mais rápido possível. É conseguir ter dinheiro até o próximo pagamento. É respirar de alívio porque chegou o final do expediente. É ir resignado de casa para o trabalho e do trabalho para casa. É adiar o máximo possível as mudanças para não ter de arriscar nada...

Chega de migalhas da vida! Chega de viver como um fugitivo, olhando para os lados, com medo de tudo e de todos! O ser humano merece mais do que simplesmente completar seus dias. Merece a plenitude da vida.

( Texto de Roberto Shinyashiki )

Postado por Tatiane Medeiros

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A vida precisa de uma resposta imediata?

“A vida não é algo a que se possa dar uma resposta imediata. Você pode usufruir o processo da espera, o processo de você se tornar você mesmo, você mesma. Não há nada mais prazeroso do que plantar sementinhas de flores e não saber quais as variedades irão brotar”. Dr. Milton H. Erickson

Postado por: Adriana Francisca de Oliveira

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Permissão para as mães


"Oi, meu nome é Mariana e eu sou mãe de dois. Tenho nas costas 5 anos de maternagem, muita autoterapia, muitos quilometros rodados como autora e leitora de blogs maternos e uma clareza de coisas inimagináveis (ou inconfessáveis) para mim há 5, 4 ou 3 anos. Há um tempinho entrei num processo doido de “desconstruir a mãe”, e isso me ajudou um bocado a lidar com algumas angústias que vieram junto com os filhos.
Do todos os discursos que a palavra “mãe” carrega, dois sempre me incomodaram.
O primeiro é o do sacrifício. A gente pega frases famosas acerca da maternidade e o que se lê nas entrelinhas é que filhos são uma espécie de castigo. “Ser mãe é padecer no Paraíso”, confere? “Quem pariu Mateus que o embale”. “Toma que o filho é teu”. O filho é um fardo a ser carregado e sofrer faz parte da beleza de ser mãe – então vamos romantiza as dificuldades e tirar daí nosso valor.
O segundo, contraditoriamente, é o da felicidade incomparável, superior e sobrenatural que a maternidade traz. Ser mãe dá sentido à sua vida. Te faz conhecer o amor e a felicidade incondicionais, de um modo que você nunca conheceria de outra forma. Ser mãe é, indiscutivelmente, a melhor coisa que pode acontecer na vida de uma mulher.
Quer dizer: quem pariu Mateus que embale, mas fica calma, mãezinha, que embalar Mateus vai ser a maior felicidade da sua vida! Confuso, não?
Mas não importa. Nós compramos felizes esses discursos. Padecemos no paraíso, embalamos Mateus, sentimos o amor sobrenatural e agradecemos todos os dias a dádiva de ser mãe. Fazemos isso nos nossos blogs, nas conversas com amigas, nas novelas e nas propagandas de fralda. Bom, falo por mim: eu já fiz, e muito, tudo isso aí. Já me senti a embaixadora das mães e bebês no planeta Terra. Mas vou contar um segredo: tem coisas sobre maternidade que eu não ouso dizer. Nem no blog, nem para as amigas. E vocês também têm, aposto.
Daí que eu tive a fase do encantamento enlouquecido pelos meus bebês. Acreditei que a minha vida ganhou sentido depois dos filhos. Que só naquele momento eu estava conhecendo a felicidade. Que ser mãe é sim a melhor coisa que pode acontecer na vida de uma mulher. Aíos hormônios baixaram e eu recuperei a clareza de pensamento entramos em fases um pouco menos arrebatadoras. Passada a paixão enlouquecida, o que ficou foi um amor imenso e a sensação boa de pertencer àquelas pessoas, àquela família. Mas me dei conta do óbvio: a minha vida não “ganhou sentido”, ela já tinha. A felicidade eu conheço desde muito cedo, graças a uma família ótima, escolhas certas e muita sorte nessa vida. Ser mãe é a melhor coisa que pode acontecer na vida de uma mulher? Não sei. Para mim, ser mãe é muito bom, muito transformador, muito chato, muito difícil, muito enriquecedor, muito cansativo, muito engraçado e traz sentimentos muito, muito intensos. E para você? E para a sua amiga? E para a sua própria mãe? Será que todas têm a mesma opinião?
O que estou querendo dizer é: padronizar as mães e esperar delas que sejam sempre A MÃE, essa entidade sagrada que aparece em montagens do facebook ao lado de frases bonitas, é sacanagem. Vender esse ideal de que mãe é quem se doa integralmente, vive para o filho, sofre sempre com um sorriso no rosto e aparece toda virginal nas campanhas de amamentação é um desserviço às mães. Cria uma meta de perfeição muito difícil de ser atingida. Te faz acreditar que ficar de saco cheio te desqualifica como mãe, porque né?, MÃESnão ficam de saco cheio – no máximo elas padecem no paraíso agradecendo todos os dias pela felicidade suprema de ser mãe, lembra?
Pois as coisas não são tão simples, os sentimentos não são tão claros, as fases mudam, nós mudamos. As mães, mesmo tão iguais, são diferentes. E se um dia você ousar pensar que, bom, os filhos são muito importantes mas não são A sua vida e sim PARTE dela, pronto: você não é mais digna de montagem no facebook. Você foi chutada do clube das MÃES, esses seres perfeitos não eram nada, não conheciam o amor e não tinham nenhum sentido em suas pobres vidas antes da chegada dos seus pimpolhos.
Eu não estou apontando o dedo para ninguém além de mim mesma. Eu já sorri e fui uma mãe de facebook declarando tudo isso aos quatro ventos. E era sincero. Mas não era toda a verdade, só parte dela – a parte mais bonita. Hoje eu entendo isso um pouco melhor.
Vou contar uma historinha que explica um pouco a minha trajetória de encontrar, entender, odiar e perdoar (quase…) a mãe que eu sou hoje.
Eu já fui integralmente dedicada aos filhos. Fui a mãe que, orgulhosamente, dá conta. Tive ajuda da minha mãe e da moça que trabalha em casa, mas as funções primordiais foram nossas, minhas e do maridão. Mais minhas, porque o acordo era esse: ele trabalhava fora e eu trabalhava “dentro” (pequenos freelas incluídos). Foram 3 anos e 8 meses assim, e então eu arranjei um freela mais longo e precisei contratar uma babá , o que era o meu pior pesadelo. “Precisei” porque a escola que escolhemos não tinha período integral e porque eu não queria mais abusar da minha mãe como abusei nesses quase 4 anos. Com dúvidas, com dor e com culpa, contratei a babá. E aconteceu o impensável: a presença da babá tornou a minha vida melhor, a ponto de eu não deixar a moça ir embora mesmo depois do freela acabar. Hoje trabalho em casa e tenho essa desculpa para mantê-la, mas cá entre nós: mesmo se o trabalho se for, a babá fica. Precisar, não precisa – eu ainda posso dar conta, como dei por tanto tempo. A babá fica não porque eu preciso, mas porque eu quero.
Ai, o querer. E mãe lá pode querer alguma coisa, ainda mais se essa coisa não for necessariamente o melhor para os filhos, como é o caso?
Sim, sim! Eis o ponto, o xis da questão, o EUREKA de todo esse meu falatório! O que mudou em mim de 5 anos para cá, graças ao estalo de admitir que eu também posso querer, é que eu comecei a valorizar o bem estar da mãe (e do pai) tanto quanto o dos filhos.
Só que eu dei azar, colegas. O meu querer não é o querer certo para uma mãe de família. O meu querer, na maioria das vezes, passa longe do pega-pega, do giz de cera e das panelinhas. O meu querer é meio egoísta e adulto demais. Conflito de interesses detected. E agora?
Sorte das mães cujos quereres são os mesmos dos pequenos. Ou daquelas que ficam muito bem no esquema “dedicação total a você” e para quem a doação total é recompensadora, estilo se meu filho está feliz eu também estou. Minhas sinceras palmas pra elas, acho admirável, até invejo. Mas existem mães como eu, com esses quereres tortos. Mães para quem a doação total é custosa, pesa na rotina, atrapalha a vida, tira o tesão. Mães do tipo se meu filho está feliz, eu também estou, mas falta alguma coisa
Pra mim, dentro do esquema “mãezona” que eu me impus, faltava eu. Não no começo, quando a maternidade me preenchia, mas depois de um tempo, com as crianças maiores um pouquinho. Faltava eu para além da mãe, saca? Sinto falta da esposa, amiga, profissional, botequeira e festeira que eu posso ser. Da moça que lê e vai ao cinema e dança fazendo um inevitável biquinho. Da defensora da preguicinha domingueira, do ócio criativo e do dolce far niente. Tudo o que eu ainda quero ser (e fazer) exige tempo. Os filhos também. De modo que, céus!, eu não raras vezes prefiro estar sem os filhos por perto para tocar certos aspectos da minha vida. Tenho adorado dividir a parte chata da rotina com a babá. E pior (segura, gente, que vai ser uma revelação fuerte!):  descobri que eu não tenho o mesmo prazer que vejo escancarado por aí no que diz respeito à maternagem. Os meus filhos (incríveis, inteligentes, simpáticos, sacanas e genuinamente legais) eu amo profundamente. Mas não amo a tal rotina de mãe, não. O trabalho 24/7, as brincadeiras repetitivas, os horários limitados… Eu encaro tudo isso, é claro. Assumo a responsabilidade. Mas não adoro, pelo menos não no atual momento (porque a minha disposição também tem fases).
Agora vamos lá: Se não queria ter o trabalho, pra que teve filhos? em três, dois, um…
Já sofri por me cobrar desse jeito, mas parei. Acho tão simplista reduzir a maternidade a uma vocação, uma competição pra ver quem é melhor, mais dedicada, mais capaz. A maternidade envolve sentimentos tão complexos, imprevisíveis, contraditórios, mutantes. Reduzi-la a “filhos são a razão da minha vida” é pouco. Eu tive filhos porque quis, porque eles trazem coisas fantásticas, porque ser mãe me faz uma pessoa melhor, porque a experiência é incrível e inigualável (para o bem e para o mal). Mas só a maternidade não me define. Ela mudou a minha vida – e eu aceito essa mudança – mas não me mudou inteira, entendem? Sobrou ainda muita coisa aqui que não tem a ver com filhos, e essas outras coisas também merecem espaço na minha vida.
Então eu decidi encarar tudo com mais leveza. Decidi não endossar o tal discurso do sacrifício, o mater-dolorosa-way-of-life. Decidi pelo estilo culpa-free (meta ainda não atingida, mas se um dia acontecer serei chutada do clube das MÃES de vez, hoho!). Atenção: culpa-free não significa “Dane-sevou fazer o mínimo, tô nem aí.”. Significa: vou ser a melhor mãe que consigo ser, sem me anular e levando todo mundo (e não só o filho) em conta.
Eu demorei quase 5 anos para tomar essas decisões e, sobretudo, fazer as pazes com elas. Admiti há pouco tempo que nem sempre coloco os filhos em primeiro lugar. E vejam: não digo isso com orgulho, de modo algum. O que estou fazendo aqui é admitir certas falhas que parecem incompatíveis com a maternidade: eu sou imatura, um pouco egoísta, um pouco hedonista e muito preguiçosa. Ou nego isso e viro a mãe perfeitinha e frustrada de filhos absolutamente felizes (quem dera fosse garantido assim, né?), ou admito as falhas e tento equilibrar as minhas necessidades e as dos meus filhos de modo que ninguém saia perdendo muito. Escolhi o equilíbrio. E, sinceramente, não sei se meus filhos perderam tanto assim. Sei que eu ganhei muito.
Para terminar, uma analogia bonita usando um cenário idílico: era uma vez uma montanha muito alta. Lá no topo, com uma vista fantástica, estavam as minhas crianças. Cá embaixo, quase no chão, nós, os pais. Só que não estava dando muito certo. As crianças são importantes, mas nós também, ué. Então tiramos as crianças do topo e fomos, todos juntos, para uma clareira um pouco mais embaixo (é que no topo não cabem os quatro). Agora toda a família está junta, não tããão lá em cima, mas no alto o suficiente para a vista do horizonte continuar sendo bem bonita. Não mais a vista espetacular que era exclusividade das crianças, mas uma bela vista que a família inteira compartilha (e quem disser que quem compartilha é a babá leva uns croques na fuça!).
A mãe que eu sou agora pode não ser A MÃE que ganharia uma montagem no facebook, mas é a mãe que eu escolhi e consigo ser: a que tenta se fazer nem mais, nem menos, mas tão feliz quanto os próprios filhos."


Autoria de uma mãe confessa - Mariana - texto encontrado em um blog na internet!


Postado por Fabiana Cândida Vitorino

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Lição de vida

Um belo dia de sol, Sr. Mário, um velho caminhoneiro
chega em casa todo orgulhoso e chama a sua esposa
para ver o lindo caminhão que comprara
depois de longos e árduos 20 anos de trabalho.
Era o primeiro que conseguia comprar
depois de tantos anos de sufoco e estrada.

A partir daquele dia, finalmente seria seu próprio patrão.

Ao chegar à porta de casa,
encontra seu filhinho de seis anos,
martelando alegremente a lataria do reluzente caminhão.

Irado e aos berros pergunta o que o filho estava fazendo e,
sem hesitar, completamente fora de si,
martela impiedosamente as mãos do garoto,
que se põe a chorar desesperadamente sem entender o que estava acontecendo.

A mulher do caminhoneiro corre em socorro do filho,
mas pouco pôde fazer.

Chorando junto ao filho,
consegue trazer o marido à realidade,
e juntos levam o garoto ao hospital para cuidar dos ferimentos provocados.

Passadas várias horas de cirurgia,
o médico desconsolado e bastante abatido,
chama os pais e informa que as dilacerações foram de tão grande extensão,
que todos os dedos da criança tiveram que ser amputados.

Porém, o menino era forte e resistia bem ao ato cirúrgico,
devendo os pais aguardá-lo no quarto.

Ao acordar, o menino ainda sonolento
esboçou um sorriso e disse ao pai:
- Papai, me desculpe. Eu só queria consertar seu caminhão, como você me ensinou outro dia. Não fique bravo comigo.
O pai, enternecido e profundamente arrependido,
deu um forte abraço no filho e disse que aquilo não tinha mais importância.

Não estava bravo e sim arrependido de ter sido tão duro com ele
e que a lataria do caminhão não tinha estragado.

Então o garoto com os olhos radiantes perguntou:
- Quer dizer que não está mais bravo comigo?
- É claro que não! – respondeu o pai.

Ao que o menino pergunta:
- Se estou perdoado papai, quando meus dedinhos vão nascer de novo?


Autor desconhecido
Postado por Tatiane Medeiros  

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

NOSSOS RELACIONAMENTOS Melhores Pais, Melhores Filhos

Sobre o relacionamento entre pais e filhos, gostaria de relatar-lhes um fato que aconteceu comigo e que muito mudou a forma de me relacionar com meus filhos.

Quando minha filha tinha 11 anos de idade, ela combinou com a mãe que, após as aulas, levaria algumas colegas para nosso apartamento para comer pizzas que elas mesmas fariam.

Minha esposa concordou e combinou com a moça que trabalhava em nossa casa que deixasse prontos os discos de massa pré-assados, a mussarela ralada, o presunto picado e o molho na geladeira. Também foram providenciados os refrigerantes, na época, garrafas de vidro de tamanho família.

Como os irmãos voltariam da escola mais tarde e minha mulher e eu estaríamos trabalhando em nosso consultório de Psicologia, o apartamento ficaria à disposição dela e das colegas.

Por volta das 17h45, terminei meu trabalho na Clínica. Minha esposa pediu-me que fosse para casa, que nada precisaria ser feito, mas que eu ficasse em casa à disposição de minha filha e de suas colegas. Logo que ela terminasse o trabalho, também iria para casa. Naquela época, já estávamos acostumados a ficar até mais tarde no consultório, estudando, depois das consultas. Os filhos, quando retornavam da escola, sabiam se cuidar e, pelo telefone, conferíamos como as coisas andavam.

Naquela tarde fui mais cedo para casa. Quando cheguei, já encontrei as colegas de minha filha assentadas à mesa, comendo e bebendo, rindo muito, alegres. Cumprimentei a todas e fiquei conhecendo as que não conhecia. O cheiro de pizza assando tomava conta de todo o apartamento. Uma delícia. Liguei a televisão e fiquei vendo o resto da novela, enquanto esperava os jornais da noite nos diversos canais de televisão. Fiquei distraído, alheio à farra das meninas.

De repente, um susto. Um grande estrondo na cozinha balançou todo o apartamento. Tremi, na sala de televisão, apreensivo com o grito de uma das colegas de minha filha. Aconteceu que, com a mão suja de gordura da pizza, ela foi pegar uma garrafa de refrigerante na geladeira. A garrafa escorregou e caiu no piso de granito. O grande barulho foi pela queda da garrafa e também pelo gás que se desprendeu do refrigerante. Espalharam-se cacos de vidro e refrigerante por toda a cozinha.

Quando cheguei lá, a jovem estava parada, muito assustada, e as outras assentadas à mesa, sem ação. Retirei a moça do lugar, com cuidado, para que não pisasse nos cacos de vidro e coloquei outra garrafa de refrigerante na mesa para elas.
Comecei o trabalho de limpeza. Catei todos os cacos de vidro, embrulhei-os em jornal para não machucar a mão do lixeiro. Puxei todo o refrigerante com o rodo. Joguei detergente e água no chão, fazendo a limpeza.

Depois disso, voltei para a sala de televisão e fiquei pensando. Pensei no fato e em como agiria se fosse a minha filha que tivesse quebrado a garrafa. Talvez ralhasse severamente com ela, chamando-a de descuidada. Talvez lhe mandasse limpar tudo. Talvez prometesse algum castigo, mesmo na frente das colegas, para ela aprender a ter mais cuidado.

No entanto, como era uma estranha, eu agi daquela maneira. Limpei tudo, além de ter retirado a menina do lugar com muito carinho. Acho que disse a ela que não se preocupasse, que aquilo acontecia mesmo, que ficasse tranqüila, que eu estava lá para cuidar dessas coisas.

Pensei mais: pensei em como maltratamos as pessoas que amamos e tratamos bem os estranhos. A menina era filha de não sei quem. Nunca a vira na minha vida! E minha filha era sangue do meu sangue, carregando consigo genes que eu transmitira, tinha ainda o meu sobrenome, que eu mesmo pusera. Eu a tratava com tanta grosseria e, à sua colega, que eu nem conhecia, eu dava todo o meu carinho.

Foi então que eu comecei a prestar mais atenção a isso. E a partir daquele dia mesmo comecei a tratar com mais cuidado, com mais carinho e atenção meus filhos e minha mulher. Comecei a tratá-los como se fossem os colegas, e minha mulher como se fosse a mulher de um amigo ou a mulher do vizinho.

Hoje acho essas ideias um tanto engraçadas. Mas acho necessário colocá-las, porque recebo em meu consultório pais, mães que agridem fisicamente os filhos e filhas. E alguns chegam a fazer isso na presença de estranhos, sem perceber a humilhação e o dano que causam. Às vezes, andando por aí, vejo mães agredindo filhas, pais gritando com filhos adolescentes. Parece-me que agem assim porque têm a idéia de que nossos filhos são nossos, nossa mulher é nossa propriedade. Nós os possuímos, fazemos deles o que queremos, os tratamos como bem entendemos. Desrespeitamos a sua individualidade, independência e autonomia. Acreditando que são nossos pertences, deixamos de cultivar laços de afeto e de ternura que somos capazes de manter com outras pessoas.



(*)Texto extraído do livro Melhores Pais, Melhores Filhos de Angela Cota e J. Augusto Mendonça, publicado em 2012 pela Editora Diamante, Belo Horizonte, MG. pp. 29-31.

Postado por Tataine Medeiros